Eu e o Bruno Nogueira.
Genericamente, eu gosto do Bruno Nogueira. E digo genericamente, porque lhe reconheço muito talento e considero que fez, ao longo dos muitos anos que acompanhei o seu percurso, várias coisas muito boas e bem feitas. Mas - como em tudo - não gostei de tudo o que fez e faz e, cada vez mais, acho o seu humor fácil e forçado. Em televisão, gostei de o ver em muita coisa, sendo que O Último a Sair e os Contemporâneos colocaram o Bruno Nogueira num patamar mesmo alto, para mim. Gostava do estilo, da espontaneidade, da inteligência, da sátira, da provocação e das "tiradas" no momento certo. A coisa começou, no entanto, a perder alguma força no programa Lado B, da RTP. Tomou entretanto outros caminhos, a que não dei particular atenção, é verdade. Retomou, com alguma serenidade, no "Fugiram de casa de seus pais", mas de forma bem distinta - mas, ainda assim, interessante. Agora, temos o "Sara" que, confesso, ainda não espreitei, mas do qual ouvi boas críticas por esse mundo cibernético e que me suscitam curiosidade.
[Do algum teatro e espetáculos ao vivo que foi fazendo não posso falar, pois não tive a oportunidade de assistir a qualquer um deles.]
Já na rádio, a coisa foi bem diferente da televisão, para mim, Até à fase das rábulas na TSF, acho que o caminho foi bem trilhado. Os textos eram bem escritos, bem interpretados e a sátira e o humor estavam na medida correta. O tom usado era o certo e até quase desafiador aos espíritos menos disponíveis para dar valentes risadas. Era, por vezes, muito difícil de resistir. Quando se transferiu o mesmo modelo para a Antena 3, as coisas não resultaram tão bem e estou em crer que terá sido isso a ditar o fim da rábula, pouco tempo depois de ter começado. Agora, temos o "Não Tejas Medo", na Rádio Comercial, programa a que eu - e bastantes pessoas amigas e conhecidas - não conseguimos achar qualquer piada. Não se percebe o propósito nem o facto de poder não ter propósito algum, não se mostra a inteligência e a sátira que marcaram o caminho do Bruno Nogueira e tudo parece resvalar para o humor fácil, tipo fast food, sem grande conteúdo ou acomodado a um estatuto demasiado confortável. Admito que das várias vezes que dei oportunidade ao programa, nunca me ri, do início ao fim da rábula - e olhem que eu sou de sorriso e riso fácil, acreditem. Essas poucas vezes foram sempre à tarde, na repetição que dá por volta das 19h00 e, regra geral, os apresentadores nunca se riem após o fim da transmissão do programa e até ficam, por vezes, sem conseguir reagir de forma concordante com o seu bom humor habitual. Ou seja, tudo aponta para que a minha impressão não seja apenas pessoal, mas mais generalizada do que, provavelmente, seria desejável pela estação.
O Bruno Nogueira sempre teve um tipo de humor perigoso, a meu ver. Muitas vezes "roça" o mau gosto e o lado negro, que não aprecio particularmente. Anda sempre um pouco no limbo e penso que isso o entusiasma. Nada contra. Gosto particularmente dele quando vai pela via da piada imediata, provocatória, mas inteligente e de bom gosto ou quando, em oposição, aposta no seu lado mais sério. Mas sinto que, por vezes, se perde entre tanta coisa e que está a caminhar num sentido perigoso, que é o de toda a gente lhe achar piada só porque sim, porque respira. Quando a evolução de um artista vai por este caminho, para mim isto é quase uma condenação ao fracasso. E tenho pena, pois gosto dele e do tanto e tão bom que foi sempre fazendo. Não estará na fase de repensar um bocadinho a orientação das coisas, caro Bruno? Ou será só uma coisa muito minha?
