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Verde Vermelho

Podia ser um blog sobre Portugal. Podia ser um blog sobre mim. Podia ser um blog sobre coisas boas e más. Podia ser um blog humorístico. Podia ser um blog a tentar ser humorístico. Podia ser um blog sobre qualquer coisa. Pois podia.

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05 de Maio, 2021

A pandemia, a profissão e a roupa

Joana

Ontem, de passagem pelos canais de televisão, deu-me para parar na novela "A Serra", que passa na SIC, porque me chamou a atenção o cenário daquilo que me pareceu ser Manteigas, uma memória de passeio a dois que nos é especialmente reconfortante. Entre as personagens que foram passando, surgiu a Sofia Alves, que desempenha o papel de alguém poderoso (não percebi bem a personagem, porque só a vi uns minutos) e que, por isso, se apresenta muito bem arranjada, com roupas bastante chiques e figura física (cabelo, maquilhagem e postura) irrepreensível. Apareceu entretanto a personagem do António Pedro Cerdeira, que faz de seu marido, igualmente bem vestido e apresentável.

O J., que estava a meu lado, teceu então um comentário que me deixou a pensar. Disse ele que se sentia feliz por não ter uma profissão que lhe exigisse andar sempre de fato e gravata, acrescentando ainda que, apesar de tudo, essa obrigatoriedade sempre seria mais fácil para um homem do que para uma mulher, no sentido em que, para eles, bastará mudar alguns pequenos acessórios e a "coisa" passa, enquanto que, para as mulheres, já não será assim tão simples. Concordei e acrescentei um pensamento que me saiu na hora, sem nunca ter refletido muito sobre ele, na verdade: eu gosto e gostaria de voltar a ter uma situação profissional que me exigisse esse cuidado suplementar todos os dias, apesar de saber bem que seria mais desgastante. Mas acho que a imagem realmente afeta a minha postura perante as minhas responsabilidades e o meu trabalho. Estou convencida que ter uma postura mais chique contribui para a minha motivação para querer ascender a novas metas na minha profissão. Pensar que essa imagem transmite uma primeira mensagem de impacto perante os outros dá-me essencialmente determinação e foco.

O J. - e eu, até! - ficou surpreendido com esta minha conclusão e, no seu seguimento, perguntou-me se eu achava que ele seria diferente se tivesse uma profissão que lhe exigisse fato e gravata. E eu prontamente respondi que sim. E realmente acedito nisso. O lado prático de calças de ganga e sapatilhas é bom, claro, mas em termos profissionais pode-nos levar a uma acomodação, que é, para mim, o primeiro sinal de alerta para o fim da motivação profissional. 

Tenho plena noção de que esta minha opinião pode não ser consensual e até ser polémica para alguns, mas sinto que a pandemia veio mostrar-nos muita coisa. Uma delas é que o conforto que sentimos em estar em casa, de roupa descontraída (ou sem partes de roupa - decentes, claro!), nos pode levar também a um desmazelo profissional, a um descrédito nosso das nossas próprias capacidades, a uma subvalorização da nossa imagem e, sobretudo - o que eu mais senti e ainda sinto - à perda de foco nas nossas metas pessoais e profissionais. Por isso, e apesar de ser uma pessoa arranjada, cuidada e gostar de mim, não me importaria nada de ter um estatuto que me exigisse, de vez em quando, um modo "vai à madrinha". Far-me-ia bem, estou certa. E possivelmente contribuiria - e muito! - para a minha motivação e para a valorização que dou à minha postura, não só enquanto profissional, mas também enquanto esposa, mãe, filha, amiga e todos os outros papéis que desempenho da minha vida.